Viajar de comboio no Japão


Uma das minhas maiores preocupações durante
a estadia no Japão foi: "Não posso perder este
passe por nada deste mundo!"


Ainda bem que os japoneses tiveram a feliz ideia de criar o Japan Rail Pass, um passe de 7, 14 ou 21 dias só para turistas que permite viajar ilimitadamente em quase todos os comboios de alta velocidade da companhia JR, incluindo o trem bala Hikari/Kodama, os comboios Narita Expresso (aeroporto de Narita- Tóquio), o Haruka (aeroporto de Osaka- Osaka e Osaka-Quioto), os autocarros JR e a Yamanote Line (linha que liga os principais pontos turísticos de Tóquio). Caso contrário, seria necessário pagar uma autêntica fortuna para percorrer distâncias de comboio. Já aqui referi várias vezes que o Japão pratica preços estupidamente acessíveis na hotelaria e na restauração, ao contrário do que a maior parte das pessoas pensa. Mas os comboios são a excepção. Não são caros, são caríssimos. Os preços dos bilhetes são de tal forma elevados que basta num só dia viajar no comboio bala de Tóquio para Quioto e regressar para que o passe fique quase amortizado.  O passe também não é barato. O de 7 dias custa 228 euros, o de 14 custa 364 e o de 21 custa 465. Estes são os preços para viajar em carruagens normais, existem outros preços mais puxadotes para quem adquirir um passe para viajar em primeira classe. Mas garanto-vos que o conforto é de tal ordem que deve meter inveja a muita primeira classe que existe por esse mundo fora.


Existem marcas no chão para que os passageiros
se organizem em filas de espera civilizadamente. 

Voltando ao passe, eu comprei o mais barato, de uma semana, através do representante da JR em Portugal e passados quatro dias já o tinha na mão. Mas é possível comprá-lo através do site da JR. Depois, basta activá-lo no dia que se quiser, ou no aeroporto de Tóquio Narita ou numa das muitas estações de comboio JR que possuem gabinetes para o efeito. Eu só activei o passe a meio da viagem, porque durante a estadia em Tóquio nos primeiros e nos últimos dias da viagem, andei de metro, usando diferentes companhias, pagando preços perfeitamente normais pelos bilhetes. Activei o passe apenas no dia em que fiz a primeira grande viagem de comboio e depois tentei rentabilizá-lo ao máximo para justificar o dinheiro que dei por ele. E acho que fiz um bom trabalho. Fiz Tóquio/Takayama, depois Takayama/Kanazawa, depois Kanazawa/Quioto e por fim Quioto/ Tóquio. Para fazer estas viagens, usei várias vezes o comboio bala. E se tivesse pago todas estas viagens à parte, acho hoje ainda estaria no Japão a lavar pratos....
Podem confirmar neste link fantástico os preços de vários percursos, através de simulaçõs. e em caso de dúvidas consultem a página de facebook da JR. Em poucas horas, respondem a todas as nossas dúvidas. Eficiência japonesa no seu melhor.
Uma loja que vende caixas Bento para levar
para o comboio. Preço médio: 7 euros.
Uma funcionária de uma estação JR
Quase toda a gente vem equipada com uma
caixinha bento que provavelmente comprou
num  dos shoppings da estação.
A passageira mais fofa da minha carruagem
Dentro dos comboios também se vendem
snacks e bebidas.


Usar o Japan Rail Pass permite pois fazer grandes distâncias num curto espaço de tempo e com um nível de conforto maravilhoso. Alguns exemplos que mostram como é possível, num só dia, viajar de manhã de uma cidade para outra a mais de 500 kms, para ir dar um passeio, e voltar ao final do dia:

Tóquio- Nagoya - 376 km - Faz-se em 105 minutos
Tóquio- Quioto - 535 km - Faz-se em 140 minutos
Quioto - Hiroshima- 380 km - Faz-se em 120 minutos
Tóquio- Aomori- 717 km  - Faz-se em  235 minutos

Não é preciso reservar lugar, basta aparecer na estação e esperar pelo próximo comboio, entrando na carruagem dos lugares não reservados. Há sempre comboios a passar. Só na viagem para Takayama é que tive de esperar algum tempo entre Nagoya e Takayama. Mas como as estações de comboio têm sempre mega shoppings onde facilmente nos distraímos a ver pessoas, lojas e, principalmente, no meu caso, a observar os hábitos alimentares, nem dei pelo tempo passar. E aproveitei para comprar comida para a viagem.



Se o percurso Tóquio Nagoya não tem grande piada - a paisagem é desordenada e o caos urbanístico tem pouco ou nenhum encanto - a viagem de Nagoya para Takayama foi surpreendentemente bonita. Takayama fica numa zona montanhosa também designada por "Alpes Japoneses". O casario vai dando lugar a plantações de chá, montanhas, pontes, rios, riachos e algumas centrais eléctricas que tiram partido das milhentas nascentes de água que existem no Japão. De Nagoya até Takayama foram duas horas e meia de viagem de pura contemplação. Reparem como a paisagem se foi alterando.




Enquanto eu contemplava a paisagem, a minha amiga S. teve a sorte de se sentar ao lado de uma japonesa sexagenária muito simpática que já tinha sido professora de inglês e por tal falava bem a língua (uma raridade)  e com quem pode trocar impressões ao longo de duas horas de paleio. Ficámos a saber que, apesar da pontualidade japonesa, por vezes há atrasos nos comboios porque, de quando em quando, há quem resolva atirar-se para a linha para acabar com o sofrimento em que vive. Consta que ser trucidado está no top dos métodos suicidas e já ninguém se espanta quando um comboio tem de parar para que retirem alguém dos carris...




A cidade de Gifu, famosa pelas termas.





Quando chegámos a Takayama já era de noite. Mas o final do dia ainda prometia animação, porque a  cidade estava no seu primeiro dia de festa. A ansiedade era enorme, afinal, a viagem ao Japão fora planeada em torno desta datas precisamente para apanhar o Takayama Matsuri, um evento de celebração da estação que tem lugar entre 9 e 10 de Outubro, no Outono, e entre 14 e 15 de Abril, na Primavera. Este é um dos principais festivais nipónicos e todos os anos atrai milhares de visitantes vindos de todo o Japão. E neste ano, até atraiu visitantes vindos de Portugal. 

Sem comentários:

Enviar um comentário